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Wednesday, August 09, 2006

Inibição Cortical, Sugestão e Hipnose

Inibição Cortical, Sugestão e Hipnose



«A palavra do hipnotizador, ... quando no córtex dos hemisférios cerebrais existe um certo grau de inibição, é capaz de concentrar, na zona limitada, a excitação, segundo a lei geral, e ao mesmo tempo suscitar uma inibição exterior profunda ... em toda a restante massa dos hemisférios e com isto exclui a acção concorrente de todas as demais ondas de excitação presentes e antigas». I. P. PAVLOV

Um balanço da situação: da década final do século XIX até o início do século XX, pouca coisa mais se descobriu além daquilo que já haviam propalado James Braid, Ambroise Auguste Liébeault, Henri Bernheim e Jean Martin Charcot, acerca do hipnotismo. O seu uso na terapêutica médica tinha sido apreciavelmente difundido. Não faltaram também os charlatães, impostores e inclusive mágicos que faziam exibições públicas e hipnotismo nos palcos e até em feiras de diversões.

A British Medical Association preocupou-se com o problema e, em 1881, constitui uma comissão encarregada de estudar o fenómeno do hipnotismo, suas implicações na área da terapêutica, bem como suas consequências e sugerir recomendações acerca do seu emprego. Do relatório apresentado em 1892, por ocasião do Congresso Anual, destacam-se como de maior importância os seguintes itens:

1. estavam convencidos da autenticidade dos fenómenos hipnóticos;
2. não havia motivos para aceitar a teoria do magnetismo animal;
3. entre os fenómenos conseguidos através da hipnose, situavam-se, sem dúvida, a alteração da consciência, limitação temporária da vontade, maior receptividade às sugestões estranhas, ilusões, alucinações, exaltação da atenção e permanência útil de sugestões pós-hipnóticas;
4. entre os fenómenos físicos observados, podiam ser notadas mudanças vasculares, anestesia, hiperestesia, catalepsia, profundidade respiratória, etc.;
5. o termo «hipnotismo» não traduz bem a natureza do fenómeno, já que este não parece semelhante ao sono;
6. estava convencida a comissão de que a hipnose é um eficaz agente terapêutico no alívio de dores, no tratamento da embriaguez e na possibilidade de realização de actos cirúrgicos sem sofrimento;
7. a comissão, finalmente, é de opinião que a hipnose deve ser usada exclusivamente por médicos para fins terapêuticos, somente em pacientes do sexo masculino e, quando mulheres, apenas na presença de familiares ou de pessoas do mesmo sexo, condenando veementemente quaisquer exibições recreativas, populares, teatrais, de hipnotismo»

(Faria, O.A. - Manual de Hipnose Médica e Odontológica, Rio de Janeiro - São Paulo: Atheneu, 1979, p. 27).

Como se vê, o “bom senso” inglês já naquela época mostrava um discernimento e um comportamento ético edificantes e dignos de meditação.

O emprego da hipnose, naquela ocasião, para fins de anestesia nas intervenções cirúrgicas, começou a reduzir-se com o surgimento da anestesia química. Durante as primeira e segunda guerras mundiais, o emprego da hipnose nas intervenções cirúrgicas sofreu um incremento, devido à falta de recursos medicamentosos.

Actualmente renova-se o grande empenho pelo emprego da hipnose na prática médica e odontológica. Esta retomada de interesse pelo hipnotismo deve-se sobretudo às investigações em torno dos processos cerebrais ocorridos durante a hipnose.

A correcta interpretação dos processos fisiológicos concernentes à hipnose resulta dos trabalhos dos reflexologistas: Pavlov, Setchenov, Frolov, Platonov, Bikov, Berkamann, Osmard A. Faria e outros.

De acordo com a Escola Reflexologista, a hipnose é um fenómeno exclusivamente fisiológico. Ela é motivada pela propagação, através do córtex cerebral, de uma inibição ocorrida numa região limitada do córtex, resultante de uma excitação de certa intensidade e constância. Todavia deve manter-se, durante a referida difusão inibitória, um ponto vigil. Este ponto vigil permite o «rapport» entre o paciente e o operador.
O sono

Ivan Petrovich Pavlov (1849-1936) nasceu em Ryazan, na Rússia central, em 14 de Setembro. Doutorou-se em Medicina em 1883, seguindo para a Alemanha, onde trabalhou sob a orientação dos famosos professores Karl F. W. Ludwuig (1816-1895) e Rudolph Heidenheim (1834-1897).

Em 1890, Pavlov retornou à Rússia onde ocupou a cátedra de Farmacologia da Academia Militar de São Petersburgo e dirigiu a construção do primeiro centro cirúrgico do mundo. Em 1891, passou a leccionar Fisiologia, obtendo uma medalha de ouro pelos seus trabalhos sobre o pâncreas.

Em 1897 Pavlov publicou os resultados de suas pesquisas originais sobre a digestão, o que lhe valeu a outorga do Prémio Nobel de Fisiologia e Medicina.

A partir de 1901, Pavlov, dedicou-se à pesquisa da secreção salivar, resultando em seus estudos dos reflexos condicionados. Daí em diante suas descobertas tiveram ampla repercussão na Psicologia, na Pedagogia e na Psiquiatria.

Foram os trabalhos de Pavlov e de seus seguidores que trouxeram uma grande contribuição para o conhecimento dos processos corticocerebrais implicados no fenómeno da hipnose.

Durante suas investigações sobre os reflexos condicionados, levadas a efeito com cães, Pavlov teve sua atenção despertada pelo facto de que alguns animais caíam em estado de sonolência, após terem sido atados com as correias aos bancos de prova. Outros dormiam profundamente ao serem submetidos aos testes de reflexos condicionados. Muitos cães, que por uma razão ou outra haviam, várias vezes, dormido nos bancos de prova, entravam em estado de sonolência ao serem, em dias subsequentes, novamente introduzidos no laboratório de provas.

«Depois de inúmeras observações experimentais, Pavlov chegou à conclusão de que os segmentos superiores do sistema nervoso central, entre eles o córtex cerebral precisamente, desempenham um papel decisivo no processo do sono, sem que exista nenhum «centro do sono» especial». (Platonov, K. - La Palabra como Factor Fisiológico e Terapêutico, Moscovo; Ediciones en lenguas extranjeras, 1958, p. 26).

O sono hipnótico igualmente não foge à regra. Ele é também essencialmente um fenómeno de inibição cortical, semelhante — não idêntico — ao que ocasiona o sono comum.

As células do córtex possuem um mecanismo natural de defesa contra o esgotamento por excesso de excitação: a inibição. Quando excitamos as células corticais, elas sofrem um desgaste de substância irritável. A recuperação da substância irritável exaurida torna-se possível graças à inibição que permite o repouso da célula extenuada.

O sono comum decorre desta inibição interna difundida por todo o córtex cerebral. Segundo Pavlov esta inibição propaga-se a amplas zonas dos hemisférios, chegando a tomá-los totalmente e, algumas vezes, a estender-se às zonas mais inferiores do mesencéfalo. Pavlov denominou este sono de «sono activo». Ele acreditava que o acúmulo de produtos do metabolismo nas células corticais contribuía directamente para desencadear o sono: «os elementos humorais formam parte dos estímulos internos da inibição, em consequência, uns ou outros produtos da actividade das células são os que provocam esta inibição». (Opus cit. p. 27).

Entretanto, a causa da inibição cortical não é apenas a apontada anteriormente. Foi observado que a ausência de estímulos internos e externos também pode aparecer e desencadear a inibição sonífera. Os estímulos corticais funcionam como obstáculos à propagação da inibição cortical. Quando as zonas de células corticais excitadas desaparecem, os focos de inibição podem propagar-se livremente mesmo às células descansadas, difundindo-se pelos hemisférios cerebrais e espalhando-se pelas zonas inferiores do cérebro. Cria-se, assim, um estado passivo correspondente ao sono. Pavlov deu-lhe o nome de «sono passivo».

De um modo geral, aquelas pessoas que não estão particularmente a exercer uma actividade intelectual intensa, caem em estado de sonolência, sob a acção de estímulos monótonos. O sono daí proveniente poderá difundir-se também a todo o cérebro. É um estado de «sono completo». Mas podem ocorrer outros tipos de sono, os chamados «sono fraccionado» e «sono parcial», conforme veremos mais adiante.

A prolongada imobilidade do corpo pode também actuar como provocadora de sono. Nos laboratórios de Pavlov, os cães que permaneciam muito tempo imóveis, atados aos bancos de prova, costumavam cair em estado de sono. A inibição sonífera pode também desenvolver-se devido à influência de estímulos breves e intensos. Os cães ao serem atados aos bancos de prova, às vezes ofereciam resistência e, após terem sido dominados e terem sofrido excitações mecânicas intensas, caíam momentaneamente em sono completo.

«Em condições de vigília completa, o estado de excitabilidade de um grupo de células corticais está permanentemente relacionado com o estado de inibição de outros grupos. As diferentes zonas do córtex cerebral que se encontram em diferentes estados formam um mosaico móvel complexo e as pequenas zonas de inibição existentes são as que provocam um sono móvel “fraccionado”. Se no córtex cerebral existem zonas de inibição mais ou menos amplas e os pontos ou zonas de vigília se encontram isoladas entre aquelas, surge um estado de sono chamado parcial.» (Platonov, opus cit. 28).

Platonov acrescenta que, desse modo, Pavlov distinguia três graus de propagação — extensão — do sono, a saber: «sono completo», «sono fraccionado» e «sono parcial». Resumindo: o «sono completo» corresponde à total difusão da inibição cortical aos hemisférios e zonas inferiores do cérebro. O «sono fraccionado» é devido a pequenas zonas de inibição cortical móveis, distribuídas por zonas maiores de células corticais em actividade. O «sono parcial» difere do anterior, apenas pela extensão das zonas de inibição, corresponde a amplas zonas de inibição cortical contendo pequenas ilhas de células em estado de excitação; os pontos ou «zonas em vigília» encontram-se isolados entre as células que compreendem extensas áreas de inibição cortical.
A vigília

O estado de vigília é praticamente o oposto simétrico do sono. O despertar equivale à propagação cortical da excitação, em um córtex cerebral cujas células foram anteriormente inibidas. Segundo Pavlov, «o estado de vigília mantém-se graças às excitações mais ou menos rapidamente cambiantes que chegam aos hemisférios cerebrais, provenientes em sua maioria do mundo exterior». (Opus cit. p.28).

Desse modo — esclarece Platonov — «(...) o estado de vigília representa um fenómeno de irradiação mais ou menos ampla do processo de excitação pelo córtex cerebral, processo que em determinadas zonas se concentra de uma maneira móvel e que está relacionado indutivamente com os processos de inibição.» (Opus cit. p. 28).
Sono e reflexo condicionado

Conforme já havíamos mencionado anteriormente, alguns animais de laboratório adormeciam durante as provas. Quando este facto se repetia um certo número de vezes, bastava ser o cão introduzido na sala habitual e atado ao banco de provas, para logo cair em estado de sono. Podia tratar-se de um animal muito esperto e activo. Logo que adentrava o local dos testes, transformava-se inteiramente; tornava-se cada vez mais sonolento à medida que era atado, e acabava por dormir completamente. Segundo Pavlov, o cachorro era «hipnotizado» à vista do ambiente circundante. «Esta observação demonstra a possibilidade que existe de provocar a inibição sonífera do córtex cerebral por via reflexa condicionada sem esgotamento prévio daquele», acrescenta Platonov. (Opus cit. p. 29).

Em 1925, no laboratório de Ivan Pavlov, o seu discípulo V. Krilov, administrou a um cão, repetidas vezes em dias sucessivos, clisteres de uma solução sonífera de hidrato de cloral em água morna. Depois de um certo número de enemas com o cloral, bastava fazer o clister apenas com água morna pura, para obter-se o sono animal.

Observe-se que tanto no caso dos cães que eram conduzidos aos bancos de prova, como no caso do cão que recebia os clisteres, os estímulos-ambiente do laboratório e o clister, de água morna, eram-lhe inicialmente indiferentes. Nenhum cachorro iria dormir quando, pela primeira vez, fosse conduzido à sala onde se achava o banco de provas; do mesmo modo, caso recebesse, pela primeira vez, um enema de água morna e pura. O sono desencadeado posteriormente, em ambas as circunstâncias descritas, teve como causa um mecanismo de «reflexo-condicionado», sem o prévio esgotamento das células corticais. A coincidência dos estímulos soníferos com os estímulos indiferentes fez com que estes últimos adquirissem propriedades soníferas para os cães submetidos às provas.

Em 1928, «A. Ivanov - Smolenski combinou estímulos soníferos (rítmicos, lumínicos, térmicos) com um som estridente e obteve reflexos soníferos condicionados como resposta aos sons estridentes». (Opus cit. p. 29).

Os estímulos soníferos condicionados podem ser muito variados. Observou-se que o estado de vigília pode resultar também de condicionamento. Verificou-se, ainda, «que uma parte do córtex cerebral pode encontrar-se em estado de vigília, enquanto outra parte se acha em estado de inibição sonífera, como acontece, por exemplo, na passagem do estádio de vigília ao de sono». (Opus cit. p. 29).

A possibilidade de manifestar-se a inibição parcial das células cerebrais explica a manifestação da catalepsia. Este particular estado ocorre quando a propagação da inibição se limita apenas às células do córtex, sem atingir a zona subcortical. Nestas condições, qualquer posição dada a determinada extremidade do animal ou do paciente mantém-se sem mudanças durante um tempo indefinido.

A possibilidade de inibição parcial das células cerebrais pode ensejar a conservação de um « ponto de vigilância» ou «ponto vigil», cuja importância é fundamental na hipnose.
O ponto vigil

Em 1935, B. Birman, no laboratório de Pavlov, demonstrou a existência do «ponto vigil», mediante uma curiosa experiência com um cão, cujo reflexo condicionado digestivo estava relacionado com o som de um tubo de órgão, que dava precisamente 256 vibrações por segundo. Fazia-se o cachorro dormir sob a acção de inibição provocada pela audição prolongada dos demais sons do órgão, diferentes daquele para o qual ele estava condicionado. O sinal de 256 vibrações era, portanto, o sinal para tomar o alimento. Assim que, no meio dos demais sons, era accionado o tubo do órgão, que produzia as 256 vibrações por segundo, o cão despertava e tomava a sua refeição.

Esta experiência mostrou que a reacção reflexo-condicionada estritamente diferenciada, elaborada em estado de vigília e correspondente às 256 vibrações por segundo, conservou-se também durante o sono.

«Desta maneira origina-se uma zona de vigília do córtex cerebral chamada por Pavlov “ponto de vigilância”. Este “ponto de vigilância” induzido positivamente pela influência do estado inibitório das zonas vizinhas do córtex cerebral, encontra-se em estado de excitação exaltada (“sob a pressão da inibição”, segundo a expressão de Pavlov), com o que assegura a manutenção de relações com o mundo exterior». (Opus cit. p. 30).

Por conseguinte, um paciente em estado de sono parcial terá sempre possibilidade de manter um rapport com o seu meio circundante e, ipso facto, com um operador humano.

A escola de Pavlov descobriu, além disso, que a passagem das células corticais, do estado activo para o de inibição não se faz subitamente e sim paulatinamente. O caso oposto, da passagem da inibição para o estado activo, também se faz paulatinamente. O trânsito da actividade para a inibição, e vice-versa, define vários estados entre o sono e a vigília. Durante o desenrolar dessas fases há ocasiões em que a reacção aos estímulos condicionados sofre alterações paradoxais.

Pavlov deu aos estados fásicos, originados no momento de adormecer-se ou despertar-se, o nome de estados hipnóticos.
Sugestão, auto-sugestão e hipnose

Os fenómenos da auto-sugestão e da sugestionabilidade acham-se estreitamente relacionados com o “estado hipnótico” (fásico) do córtex cerebral. Como afirma Pavlov: “Encontramo-nos ante dois factos, a saber, com possibilidade de influir sobre a actividade nervosa superior de uma pessoa por meio de sugestões verbais feitas por outra pessoa, e com a possibilidade da auto-sugestão, que pode em certas condições adquirir um “significado” predominantemente “ilícito e invencível”. (Opus cit. p. 32).

A causa da sugestionabilidade reside na facilidade com que as células corticocerebrais passam do estado activo à inibição e vice-versa. Assim o mecanismo fundamental da sugestibilidade relaciona-se com a “fragmentação” dos processos de todo o córtex cerebral. Nestas condições o sugestionado escapa às influências ordinárias das demais partes do córtex cerebral. A condição fisiológica fundamental da sugestionabilidade é, pois, a diminuição do tónus do córtex dos hemisférios cerebrais e a facilidade da actividade cortical.

A existência de focos de excitação nos hemisférios cerebrais, que adquirem uma função predominante, é a essência básica dos fenómenos de sugestão e auto-sugestão. Segundo Pavlov: “Esta excitação existe e actua, quer dizer, concretiza-se em movimentos e actos motores, não porque esteja sustentada por toda a classe de associações, isto é, entrelaçada com numerosos estímulos recentes e antigos, sensações e representações, em cujo caso o resultado seria um acto voluntário e racional, como é o natural em um córtex normal e forte, senão porque sendo o córtex débil e de tónus baixo, esta excitação concêntrica acompanha-se de uma indução negativa intensa, que a desconecta e isola de todas as influências alheias necessárias”. (Opus cit. p. 33).

No estado de hipnose o córtex dos hemisférios cerebrais, devida à irradiação da inibição, caracteriza-se pela diminuição do seu tónus positivo. Pavlov esclarece ainda, a este respeito, o seguinte: “Quando neste estado se envia a palavra como estímulo a um ponto determinado do córtex cerebral, como por exemplo, a ordem do hipnotizador, este estímulo concretiza o processo excitativo no ponto correspondente e vai acompanhado imediatamente de um processo de indução negativa, que, graças à pouca resistência que encontra, se propaga a todo o córtex; por esta razão, a palavra, a ordem, fica completamente isolada de todas as influências e converte-se em estímulo absoluto, invencível, que actua fatalmente, inclusive quando o sujeito recupera o estado de vigília.” (Opus cit. p. 33).

Assim temos explicado o processo corticocerebral que envolve o fenómeno da hipnose, de acordo com a doutrina pavloviana. As explicações de Pavlov serão melhor entendidas se considerarmos o significado da palavra no contexto da teoria dos reflexos condicionados. A função elocutória (L.elocutione = exprimir por palavras) introduz um novo princípio na actividade cerebral do homem e que constitui o segundo sistema de sinalização da realidade, próprio apenas do homem. A palavra, para o homem, substitui a experiência imediata da realidade, portanto equivale aos diversos estímulos directos dados pelos sentidos, que constituem o primeiro sistema de sinalização. Em consequência disso, a palavra é para o homem um “estímulo condicionado” omnímodo (L. Omnimodu = ilimitado). Os estímulos verbais representam uma abstracção da realidade. Eles permitem a generalização e constituem as bases do pensamento, faculdade superior típica do homem. Assim, a palavra, substituindo os estímulos oriundos dos sentidos — melhor dizendo, dos “analisadores” — poderá provocar todas as alterações fisiológicas produzidas pelo primeiro sistema de sinalização.

Devido à possibilidade de pensar e de traduzir em termos verbais a experiência da realidade, o homem consegue auto-sugestionar-se e atingir variados estados alterados de consciência, entre eles a auto-hipnose.
Conclusão

Como acabamos de ver a Reflexologia, criada e desenvolvida pelo genial mestre, Ivan Petrovich Pavlov, e seus discípulos, trouxe novas luzes acerca da hipnose e dos prováveis processos corticocerebrais implicados no transe hipnótico. Pavlov conseguiu dar uma explicação rigorosamente fisiológica para o fenómeno hipnótico, completando assim o caminho indicado por James Braid, Abroise Auguste Liébeault e Henri Bernheim.

Entretanto, as hipóteses de Pavlov, embora possam ser perfeitamente correctas, não cobrem todos os aspectos acerca da hipnose, por não levarem em conta a função psi. Dentro mesmo do âmbito materialista e fisiologista desenvolvido na Rússia, devemos assinalar a actuação de Leinid Leonidovich Vasiliev (1891-1966), professor de Fisiologia na Universidade de Leninegrado e membro correspondente da Academia de Ciências Médicas da URSS. Pois bem, Vasiliev, a partir de 1920, dedicou-se, juntamente com o dr. Vladimir Bekhterev e os académicos Alexandre Leontovitch e Pavel Lazarev, à pesquisa da “sugestão mental à distância”. Em 1960, foi fundado na URSS o primeiro Laboratório Para o Estudo da Sugestão Mental, junto ao Instituto de estudos Fisiológicos da Universidade de Leninegrado, sob a direcção de L. L. Vasiliev. Anteriormente, de 1932 a 1937, Vasiliev e seus colegas já haviam feito uma série de investigações em um laboratório especial do Instituto de Estudos do Cérebro Bekterev, cujos resultados foram publicados em livro. Mas, há muitos anos, também foram feitas observações e experiências de sugestão mental à distância, conforme iremos expor no próximo número, nesta mesma secção.

Desde que se demonstre a possibilidade de transmitir ao longe, de um cérebro para outro cérebro, sugestões mentais, o caso complica-se.

Este facto praticamente restabelece a tese mesmerista da influência de uma pessoa sobre outra, em virtude de alguma espécie de “magnetismo animal” emanado do magnetizador e transmitido ao paciente.

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